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Belo Horizonte, sabado, 25 de maio de 2013


Clipping


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29/02/2012

Estudo indica risco de contágio por roupas de médicos usadas fora do hospital
Pesquisa mostra que jalecos usados por profissionais de saúde fora do ambiente
de trabalho transportam agentes nocivos. Prática é proibida em BH, mas nas ruas impera o desrespeito

 

Repórter: Júnia Oliveira

Passado quase um ano da sanção da lei que proíbe profissionais de saúde de circular em Belo Horizonte fora do ambiente de trabalho vestindo jalecos, aventais ou outras roupas próprias ao exercício da função, o que se vê nas ruas da capital é um desfile de desrespeito à legislação e ao bom senso. Bastam poucos minutos perto de clínicas e hospitais para ver o vaivém de gente vestida com o que deveria ser apenas acessório de proteção. Dissertação de mestrado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) reacende a discussão sobre os riscos de contaminação a partir dessas peças de roupa. A pesquisa, desenvolvida na Escola de Enfermagem, comprova que jalecos são fonte de transmissão de micro-organismos nocivos e indica o bolso e a região abdominal da roupa, onde as mãos estão em contato frequente, como os pontos mais críticos, com níveis de contaminação em 51% e 43%, respectivamente.

A pesquisa foi feita durante seis meses, em um hospital do Centro-Oeste do estado. Cem profissionais de diversos setores responderam a um questionário sobre cuidado, higiene e troca de jalecos. A maioria relatou o hábito de trocar a peça a cada plantão (68%). Já 83% disseram usá-la por proteção individual. Entre quem trabalha em outras instituições de saúde, 41,2% afirmaram usar o mesmo uniforme em unidades distintas. Staphylococcus spp (estafilococos) foi o gênero de bactéria mais encontrado.

“Tínhamos ideia de que a roupa não seria estéril. O que queremos frisar é a necessidade de medidas de biossegurança, de higienização das mãos e da troca mais constante do jaleco. A contaminação é inerente ao trabalho, mas como lidar com isso? É preciso ter mais cuidado antes de tocar no paciente e no contato com as superfícies, como mesa de cabeceira, cama e bancada, ou com outro objeto”, afirma a autora da dissertação, a aluna Marlene das Dores Medeiros Silva. “Não devemos considerar somente a limpeza das mãos, pois outras fontes estão inseridas na transmissão cruzada de micro-organismos”, completa.

O risco oferecido pelo jaleco é controverso. Em BH, o debate veio à tona há quase um ano, com a Lei 10.136, conhecida como “Lei do Jaleco”, sancionada em 18 de março pelo prefeito Marcio Lacerda. No fim do ano, houve mais discussões, diante de projeto de lei segundo o qual profissionais estariam sujeitos a multa caso frequentassem, usando a peça, estabelecimentos que servem refeição. Donos de bares ou restaurantes também estariam sujeito a punição. A proposta chegou a ser aprovada na Câmara Municipal, mas foi vetada pelo chefe do Executivo.

Cuidado
Na dúvida, a cuidadora de idosos Rosângela Maria Martins, de 50 anos, prefere não arriscar e segue com esmero as recomendações de higiene. Ela conta que a troca e a lavagem diária da roupa são sagradas. “Se saio com o paciente para um passeio ou para ir ao hospital, ponho outro jaleco, e, quando retorno, visto aquele que estava usando antes. Faço por mim e pelo paciente, para não nos contaminarmos com qualquer infecção, já que a rua oferece muitos perigos”, diz.

Alguns hospitais recomendam aos funcionários que não saiam à rua vestindo jalecos. No Pronto-Socorro Risoleta Neves, em Venda Nova, a assessoria informou que são frequentes as campanhas internas para o uso da peça em locais adequados e para higienização das mãos. Quem for flagrado fora da unidade vestindo o acessório de segurança está sujeito a sanções administrativas, que começam com advertência.

No Hospital das Clínicas, na Região Hospitalar, não há medidas punitivas, mas a recomendação, com citação da lei municipal, também é constante. No restaurante universitário da UFMG do câmpus Saúde, pessoas vestindo jaleco são orientadas a tirá-lo. A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) informou que a campanha é feita também por setores. No bloco cirúrgico ou no CTI, a roupa deve ser descartada imediatamente depois da saída do ambiente. Apesar de todos os cuidados anunciados, a constante exibição nas ruas do que deveria ser uniforme de trabalho mostra que as providências estão longe de conscientizar todo o pessoal que atua na área de saúde.

Memória: uma briga antiga
Em 29 de agosto de 2010, o Estado de Minas publicou dados preocupantes sobre a rotina de unidades de saúde brasileiras. Levantamento feito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em cinco hospitais de grande porte do país revelou que 60% dos profissionais não lavam as mãos antes e depois de ter contato com pacientes. A matéria mostrou ainda que a falta de higiene ganha força com os funcionários de clínicas e hospitais, que circulam pelas ruas de Belo Horizonte vestidos com o jaleco.

Ponto crítico: o jaleco apresenta risco de contaminação?

Adriana Cristina Oliveira, professora-doutora da Escola de Enfermagem e orientadora da dissertação
SIM: “A questão é avaliar o tipo do risco. Pessoas que trabalham em instituições de perfis diferentes têm o hábito de usar o mesmo jaleco no contato com os pacientes. Micro-organismos de diferentes perfis pode representar risco, dependendo do tipo de paciente, como os imunossuprimidos. A intenção do estudo não é comprovar que os micro-organismos encontrados na roupa sejam exatamente os causadores de determinada infecção, mas sobretudo que eles podem ser transportados e contribuir, sim, na transmissão cruzada. Uma das metas da Organização Mundial de Saúde é diminuir a infecção associada ao ato de cuidar dos pacientes e, daí, todos os esforços para redução da disseminação de micro-organismos são essenciais.”

Unaí Tupinambás, infectologista
NÃO: “A preocupação maior não é com o uso ou não do jaleco, mas com a higienização das mãos e o engajamento nas medidas de higiene. Em qualquer roupa que se fizer uma cultura no fim do dia serão encontradas muitas bactérias. O importante é que o jaleco seja usado apenas em ambiente hospitalar. Quem entra e sai dessas unidades também deve lavar as mãos antes e depois, bem como no atendimento ao pacientes. Esse é o grande benefício. O que causa mais impacto ainda é a lavagem das mãos, higiene básica. Mas o certo é deixar o jaleco só no hospital, pois ele serve para proteger a roupa de baixo. Não é correto sair à rua vestido com ele.”

Fonte: Estado de Minas


 

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