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04/01/2012
A gravidez como um presente Doação de óvulos é um procedimento cada vez mais aceito. Para muitas mulheres, só essa técnica permite a realização do sonho de ser mãe
Repórter: Thaís de Luna
A véspera de Natal de 2007 não poderia ter sido mais especial para a autônoma Luma*. Ela engravidou de Júlia*, fruto de uma fertilização in vitro (FIV) a partir da doação de óvulos. Luma, de 49 anos, casou-se aos 36 e deixou para engravidar depois, quando estivesse estabilizada profissionalmente. Cerca de cinco anos depois do casamento, pensou que estava na hora de ter um filho, mas, apesar de todas as tentativas, seu sonho não se concretizava. “Comecei a ficar preocupada, pois sempre fui ao médico e minha saúde estava boa. Então, fiz uma série de exames e descobri que estava em uma idade em que a gravidez seria de risco, pois meus óvulos já não tinham mais a mesma qualidade de quando eu era mais jovem”, relata. “Fiquei muito triste, pensando que eu não poderia mais ter filhos.”
Então, há cerca de quatro anos, surgiu a oportunidade de ela engravidar a partir da doação de óvulos. “Eu não sabia se ficava feliz ou com medo. Passei várias semanas sem ter coragem de ir ao médico saber mais sobre o procedimento, porque não estava preparada para isso”, admite. Quando conseguiu seguir em frente com o projeto de ter um bebê, teve acompanhamento psicológico para lidar com as novas informações, o que foi de grande ajuda.
“Quando engravidei, não passou pela minha cabeça ou pela do meu marido ‘esse óvulo veio de outra pessoa, por isso a criança não é minha’. Foi apenas a doação de alguém que me ajudou a ter minha filha e completar minha vida”, assegura. Luma ressalta que a menina, hoje com 3 anos, é um pedaço dela. “Afinal, fui eu quem a carregou no corpo durante nove meses. Fui eu quem sentiu tudo.” A autônoma, que é muito religiosa, destaca que agradece a Deus todos os dias pelo presente de Natal que ganhou a partir da ajuda de outra mulher.
O marido de Luma, o aposentado Pedro*, de 63, foi quem lhe deu a ideia de procurar um tratamento de fertilização. “Ouvi um anúncio no rádio e resolvi seguir minha intuição. Falei com minha mulher para procurarmos a clínica sobre a qual comentavam na emissora”, relata. Pedro garante que, para ele, nunca houve dúvidas ou questionamentos em relação a ter uma filha que seria gerada a partir do óvulo de outra mulher. “Os médicos nos explicaram toda a situação com muita clareza. Para mim já era mais fácil aceitar, porque o espermatozoide que formaria o embrião seria meu. Minha função foi mais apoiar minha esposa nesse momento de compreender se ela ia querer se submeter ao procedimento”, conta. Ele comemora os resultados positivos de toda essa história. “Nossa filha é uma criança maravilhosa. É um presente nas nossas vidas.”
Uma dor comum A história de Luma é apenas uma entre tantas ao redor do mundo, de mulheres que desejam ser mães mas, por algum problema com os próprios gametas, precisam recorrer aos óvulos doados por outra pessoa para realizar esse sonho. É só pensar na personagem Esther, interpretada por Júlia Lemmertz na novela Fina Estampa. Segundo o diretor científico do Instituto Brasileiro de Reprodução Humana Assistida (Ibrra), o mineiro Juliano Scheffer, cerca de 15% dos tratamentos em clínicas de reprodução humana assistida são devido à doação de óvulos. “A receptora é a mulher que não tem óvulos, seja porque entrou na menopausa na idade normal ou precocemente, seja por prevenção de uma anomalia genética; porque já retirou o ovário; ou porque teve câncer e, depois de ter sido submetida a químio ou a radioterapia, o ovário não funciona mais”, descreve.
O especialista em reprodução humana Vinicius Medina Lopes, de Brasília, explica que o médico seleciona a doadora com base em uma lista de critérios. “Entre eles estão cor dos olhos, cor e textura do cabelo, cor da pele, tipagem sanguínea, biótipo, altura e peso”, enumera. Scheffer complementa que o tipo sanguíneo é importante porque se o filho fizer testes de sangue verá que é igual ao da mãe. O diretor científico do Ibrra diz que embora o bebê não seja geneticamente da receptora, ele tem características físicas parecidas com as dela. “Além disso, na ciência, não temos definição clara de se a mãe é quem forneceu os gametas, quem gerou o bebê ou quem o educou”, comenta.
Vinivius Lopes avalia que o preconceito sobre a doação de óvulos diminuiu muito nos últimos anos. “As receptoras já encaram o caso de forma diferente, aceitam a indicação de usar óvulos de outra mulher de maneira mais tranquila”, diz. “Ao lhes indicar a doação de óvulos, o impacto emocional é grande, mas, ao explicar que esse procedimento é rotineiro – já que as mulheres decidem ficar grávidas cada vez mais tarde –, elas ficam mais calmas.” Ele acrescenta que é importante que doadoras, receptoras e seus respectivos companheiros sejam acompanhados por um psicólogo no período em que vão decidir se pretendem seguir com todo o processo.
“O profissional vai detectar se há algum tipo de conflito sobre a concepção e o feto em si. Há pacientes que têm ideias irreais sobre o filho. Também existem as que querem que os genes da família sejam perpetuados e, por isso, pedem que uma irmã doe os óvulos. Como o processo é anônimo, esse tipo de coisa não pode ocorrer”, informa. Lopes adverte que se a futura mãe não compreender todo o processo claramente, pode rejeitar a criança, do ponto de vista emocional.
Troca A atendente administrativa Patrícia*, de 28 anos, chegou a uma clínica de reprodução assistida porque queria fazer uma FIV, já que tinha tido gravidez tubária duas vezes, nas quais perdeu os bebês e as duas trompas. “Não tinha condições financeiras para me submeter ao procedimento. Então, meu médico me falou sobre esse programa de doação compartilhada, em que eu doaria alguns óvulos meus e outros seriam fertilizados para que eu pudesse engravidar, tornando o tratamento mais barato”, lembra. A jovem achou a ideia muito interessante. “Gostei muito da possibilidade de ajudar uma pessoa que não tem condições de ovular.”
“Tive que passar por atendimento psicológico, para avaliar se a doação estava esclarecida para mim. A orientação psicológica é necessária porque o óvulo é meu, o DNA é meu. Tem doadoras que piram com isso, pensam ‘meu filho sendo criado por outra pessoa’. Eu não pensei assim. Li muito sobre o assunto, me informei e achei tudo muito natural”, revela. Patrícia conta que não tem curiosidade de saber se os óvulos que doou se tornaram embriões, além de não querer conhecer a criança que ajudou a nascer, caso um dia saiba que ela exista. “Nem procuro pensar nisso. Na verdade, só fico feliz ao pensar que posso ter ajudado alguém a realizar um sonho. Não podemos ser egoístas neste mundo”, ensina. Atualmente, a atendente administrativa está grávida de dois meses, por FIV. Ela acrescenta que o marido também aprova a atitude de ela ter doado parte de seus gametas.
Para ser doadora, Vinicius Lopes afirma que a mulher deve ter entre 18 e 35 anos, passar por uma série de exames a fim de comprovar que não tem doenças transmissíveis e ter grande quantidade de óvulos com boa qualidade (veja infografia). Juliano Scheffer pondera que apesar de todas as avaliações pelas quais a doadora passa não é possível determinar se ela transmitirá algumas doenças genéticas para a criança, já que nem todo o DNA humano foi mapeado. A fim de evitar casos como o incesto acidental entre meios-irmãos e meias-irmãs, os óvulos da doadora só podem dar origem a um menino e uma menina para cada 1 milhão de habitantes.
* Nomes fictícios a pedido dos entrevistados
Fonte: Estado de Minas
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