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DATA | 06 de setembro de 2010


Enganados pelo cérebro
Sensação de déjà-vu ou experiência extracorpórea, embora não totalmente elucidada pela ciência, pode ser um tipo de curto-circuito que provoca falhas temporárias na memória

Repórter: Paloma Oliveto

“Será que estou ficando louco?” É a primeira pergunta que passa pela cabeça de pessoas que, em um momento ou outro, experimentam sensações desconcertantes. Pode ser a impressão de que há mais alguém em uma sala onde se está sozinho, a percepção de que a alma está saindo do corpo, a dor em um membro já amputado ou a certeza de que uma cena em ação já ocorreu antes.

Fenômenos como o famoso déjà-vu ou a sensação extracorpórea costumam ser associados a eventos fantasmagóricos, experiências espirituais ou a uma boa dose de imaginação. Porém, eles despertam o interesse dos cientistas que não se conformam com explicações sobrenaturais e, cada vez mais, estudam os mecanismos do cérebro responsáveis por esses acontecimentos.

Embora não tenham elucidado completamente os fenômenos, os pesquisadores estão se aproximando das respostas. O segredo está no cérebro, onde “curtos-circuitos” eventuais interrompem ligações elétricas e provocam falhas temporárias. Na maioria das vezes, esses efeitos são tão pouco frequentes, que não deixam mais que um incômodo em quem os sente. Mas há situações dramáticas, como a dos amputados, que sofrem dores crônicas nos membros extirpados. “A dor fantasma pode comprometer severamente a qualidade de vida de pacientes que já tiveram de se adaptar à mudança de sua imagem corporal e, quase sempre, atrapalha suas atividades diárias”, disse ao Estado de Minas o pesquisador Andres Lozano, da Universidade de Toronto, que investiga o assunto e já publicou um artigo na revista especializada Nature.

Às vezes, as experiências também podem se repetir tanto que a pessoa precisa fazer tratamentos terapêuticos para lidar com elas. O médico Chris Moulin, que chefia um laboratório de estudos da memória da Universidade de Leeds, no Reino Unido, relata o sofrimento de um paciente que sofria de um déjà-vu atrás do outro. “Ele não só acreditava que me conheceu outras vezes, como dava detalhes específicos sobre dias e locais onde ocorreram os eventos dos quais ‘se lembrava’’’, conta Moulin. Ele parou até de assistir à televisão, porque tudo parecia repetido.

Os estudos sobre esses fenômenos não servem apenas para matar a curiosidade. Eles podem levar ao desenvolvimento de técnicas que aliviem a dor nos membros amputados ou ajudar na compreensão dos tipos de memória armazenadas pelo cérebro.

De paranormal a distúrbio visual
Muita gente já passou pela experiência de chegar a um lugar e ter a impressão de que já esteve lá antes. Esse sentimento misterioso, conhecido como déjà-vu, ocorre quando uma situação parece muito familiar, mesmo sendo evidente que ela não poderia ter ocorrido anteriormente. Por muito tempo, essa horripilante experiência foi atribuída a muitas coisas, de casos paranormais a distúrbios visuais. Porém, recentemente, com um maior número de cientistas estudando o déjà-vu, novas teorias surgiram e, embora não o tenham decifrado com exatidão, já se tem uma ideia melhor do que seja o fenômeno.

Durante muitos anos, a explicação científica mais aceita era a de que o déjà-vu estava associada ao campo visual. Pensava-se que as imagens capturadas por um dos olhos chegava com atraso, formando-se no cérebro em frações de segundo depois das imagens identificadas pelo outro olho. Com isso, a sensação era a de estar vendo a mesma coisa pela segunda vez.

Era uma boa explicação, até que pesquisadores de Leeds encontraram um deficiente visual que já havia passado pela experiência com base em cheiros, sons e toques que lhe pareciam familiares. “O atraso óptico é uma teoria antiquada, mas amplamente divulgada. Mas o fato de um cego ter déjà-vu fornece uma forte prova de que isso não pode ser a explicação", disse ao EM o pesquisador Akira O'Connor.

Ele e outros cientistas da Universidade de Leeds decidiram, então, estudar o fenômeno, induzindo a sensação em laboratório, hipnotizando voluntários. Em um dos testes, foi apresentada aos participantes uma lista de palavras que deveriam ser memorizadas. Depois, eles foram hipnotizados e estimulados a esquecê-las. Mas, ao acordar, os participantes foram apresentados novamente à lista de palavras e quase todos afirmaram ter passado pela sensação de déjà-vu, pois tinham a impressão de que já haviam lido as palavras antes, embora não soubessem quando e onde.

Segundo O'Connor, quando uma pessoa reconhece um objeto ou uma cena familiar, ocorrem dois processos. Primeiro, o cérebro procura na memória algo semelhante aos conteúdos observados. Em caso de resposta afirmativa, outra parte do cérebro identifica o objeto ou o acontecimento como sendo recorrente. O déjà-vu ocorre quando a resposta vem truncada por causa de um engano cometido pelo cérebro. Esse erro provavelmente ocorre no lobo temporal — região ligada à formação das memórias. Na pesquisa, os voluntários foram monitorados por exames de imagem e quando tinham a sensação do déjà-vu, essa área cerebral ficava mais ativa.

Dor que não existe Como se não bastasse o sofrimento de ter um membro do corpo amputado, muitas pessoas que precisam passar pela cirurgia são vítimas de um fenômeno extremamente incômodo, conhecido como dor fantasma. Elas conseguem sentir a parte extirpada como se ela ainda estivesse presa ao corpo. “Frequentemente, essa sensação é dolorosa", contou ao EM o pesquisador Lozano, cuja equipe investigou o fenômeno e descobriu que os neurônios usados para representar a sensação no membro amputado continuam funcionais depois da extirpação, e passam a ser ativados por outras partes do corpo, geralmente a mais próxima do local da amputação.

É comum ouvir relatos de pessoas que acreditam já terem “saído do próprio corpo”, uma experiência geralmente associada a fatores místicos e religiosos. Mas a ciência conseguiu provar que o fenômeno, muitas vezes, também confundido com a imaginação fértil, tem explicação lógica. Em 2007, pesquisadores publicaram na Science estudos que mostram ser possível, inclusive, induzir essa sensação em pessoas saudáveis, que nunca pensaram que suas almas haviam se separado do corpo.

Depois de fazer uma experiência com a tecnologia da realidade virtual, os cientistas afirmaram que uma desconexão entre os circuitos cerebrais que processam as informações sensoriais pode ser responsável pela sensação de sair do corpo. De acordo com eles, essa experiência costuma ocorrer em usuários de drogas, epilépticos em convulsão e outros tipos de distúrbios cerebrais.

O cientista Henrik Ehrsson, da Universidade College London, na Inglaterra, e a equipe de Olaf Blanke, da Escola Politécnica Federal de Lausanne na Suíça, fizeram testes com voluntários que concluíram que o conflito multissensorial é o mecanismo-chave na base da experiência extracorpórea. “As disfunções do cérebro que interferem nos sinais de interpretação sensoriais podem estar na origem de certos casos clínicos de experiência extracorpórea. No entanto, não sabemos se todas essas experiências são provenientes das mesmas causas", disse Blanke ao EM.

Segundo ele, a estranha sensação de que alguém está perto quando, na verdade, não há ninguém, também já havia sido descrita por pacientes neurológicos e psiquiátricos, assim como por pessoas saudáveis. “Mas até agora não entendíamos como essa ilusão formava-se no cérebro”, disse ele. Segundo Olaf Blanke, a junção temporopariental é conhecida por estar envolvida na criação do conceito do “eu” na distinção entre “eu” e “o outro”. Quando estimulada, essa região interfere na habilidade da pessoa em reconhecer o próprio corpo. “Acho que nossa descoberta é um passo no entendimento do mecanismo por trás de manifestações psiquiátricas como paranoia e mania de perseguição”, diz o cientista.

Fonte: Estado de Minas